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14/10/2020

Campo Grande de volta para o futuro

CAMPO GRANDE DE VOLTA PARA O FUTURO

 

 

 

O que se pode esperar para o futuro da cidade de Campo Grande, a capital do estado de Mato Grosso do Sul?

A cidade se apresenta como de porte médio, próxima de um milhão de habitantes, lugar aparentemente aprazível para se viver, e o que mais?  Seu solo é fértil, seu clima ameno, porém predominando o calor, com abundantes águas de córregos, rios e lagoas.  Tem tudo o que uma capital de respeito necessita, mas conserva uns ares de provincianismo que talvez seja o seu maior atrativo. Conserva também cicatrizes do seu passado violento.

 O que a define? O que de fato explica e representa a urbe nascida há quase duas centenas de anos, jovem, portanto, fincada nos extensos Campos da Vacaria, como antigamente chamava-se este território imenso e remoto de sertões brasileiros e de fronteira.

A história deste lugar e de sua gente é a chave para a compreensão de sua identidade e permite que se vislumbre as suas possibilidades futuras. Isto porque as cidades podem parecer iguais, mas suas histórias não o são. Como tudo começou neste lugar pode explicar como Campo Grande poderá vir a ser uma alternativa de qualidade de vida urbana em pouco tempo.

Estes extensos campos, plenos de generosa natureza que existiram em estado bruto, separando dois impérios ibéricos na América do Sul, não eram vazios antes de aventureiros e sertanistas os percorrerem. Sociedades pré-colombianas e indígenas estavam presentes neste território, mas foram ignorados pelos conquistadores vindos de outras terras. Nas primeiras décadas do século XIX, formaram-se os pioneiros assentamentos de “novos” conquistadores, agora provenientes de outras regiões brasileiras, em busca de terras para ocupar e explorar seus abundantes recursos naturais, que, no entanto fixaram-se de forma isolada, em núcleos familiares e abrindo fazendas, sem ensejar fundar arraiais. Viveu-se, pois, um insulamento de gente, reunidos por laços de parentesco, por exemplo.

Campo Grande teria nascido assim timidamente, sem o burburinho das zonas de mineração onde a riqueza do ouro e de pedras preciosas atraiu muita gente de toda parte, como aconteceu com a Cuiabá do Mato Grosso. Entretanto, não logrou paz e prosperidade perenes por que uma grande guerra aconteceu e adiou o seu futuro promissor naquela época.

Passado o tempo do conflito, quando este território quase se destinou a ser uma província paraguaia, projeto derrotado na guerra da Tríplice Aliança, a povoação se reestabeleceu sob uma nova função de pouso, comunicação e comércio, como ponto de convergência de gente que circulava de norte a sul do Mato Grosso e das regiões platinas. Vislumbrou-se no final do século XIX um futuro promissor e o crescimento de um importante polo mercantil de abastecimento interno e de exportação de gado bovino e matérias primas provenientes dos ervais nativos da nossa extensa fronteira. Mas, um conjunto de fatores desfavoráveis, e, sobretudo a sua condição de fronteira livre e aberta sem a presença ostensiva do aparato do estado, fez de Campo Grande um povoado turbulento, onde se ouvia cotidianamente os sons de tiroteios e onde imperou por muito tempo a lei do “44”, o crime recorrente e a impunidade.

A partir de então, a vila viveu um tempo de efervescência e crescimento, assumindo novo papel preponderante em todo o sul mato-grossense. O futuro vislumbrava uma nova era de riqueza, de protagonismo político regional e de paz. Mas, as turbulências do passado permaneceram retardando seu desenvolvimento humano. Esse foi o tempo do domínio em Mato Grosso dos coronéis grandes proprietários e empresários e dos bandidos que circulavam livremente por todos os lados da faixa fronteiriça.

Reflexos de crises e rebeliões regionais e nacionais se fizeram sentir na comunidade campo-grandense, tais como as agitações promovidas por revoltas de militares e de chefes políticos revoltosos como Bento Xavier no início do século XX. Sofreram seus moradores com a revolução de Izidoro Dias Lopes e a passagem da Coluna Prestes (1924 e 1925), com as revoluções de 1930, 32 e 34 e, sobretudo, vivenciaram o descaso dos sequenciais governos de Mato Grosso que negligenciavam os interesses dos mato-grossenses do sul e da fronteira. Assim, nasceu um forte impulso de independência que, aos poucos, apontando para o futuro de liderança de Campo Grande, ensejou a criação de um novo estado.

E para corrigir o percurso mais remoto de violência e desregramento de parte de seus habitantes, como foi um lugar de passagem por onde convergia gente de toda espécie, aventureiros desregrados e fugitivos da justiça e da lei, além da política externa representada pela rivalidade entre as nações do Prata e o Brasil, foram construídos os grandes quartéis, foi criada  a sede da Circunscrição Militar na emergente cidade e os governos que se seguiram após 1920 e 1930, federal e estadual, voltaram suas vistas e recursos para amparar e proteger a imensa e flutuante fronteira.

    Campo Grande seguiu crescendo como eixo catalizador do movimento mercantil de exportação e importação com a chegada do caminho de ferro, quando em 1914 se deu a ligação dos trilhos da Noroeste do Brasil como parte de um grande projeto de vinculação dos sertões do Centro Oeste aos centros mais desenvolvidos. Abriu-se uma nova porta para tempos vindouros até a realização de um sonho dos campo-grandenses em 1979 com a instalação de uma capital de um novo estado brasileiro.

 Depois de elevar-se à categoria de cidade e receber imigrantes de muitas partes do Brasil e do resto do mundo, constituiu-se um caldeirão de povos, raças e culturas que produziu uma sociedade multicultural e apta a enfrentar os desafios do século XXI, e esta é uma das maiores vantagens que Campo Grande tem em relação a outras grandes cidades brasileiras.

Mas outros desafios se apresentam no tempo presente, com a repercussão das crises desse novo século, incluindo novas formas de violência que nos ameaçam. Retornar ao passado, com uma máquina do tempo para ver com os próprios olhos as crises e a violência reinante naquele incipiente vilarejo de fronteira é pura fantasia. Necessário e possível é mergulhar na história destes sertões do sul de Mato Grosso, através dos livros, dos jornais e outros documentos ainda existentes para aprofundar a compreensão dos acontecimentos mais críticos e específicos desta região, sem perder de vista de que se trata de uma região de fronteira. Afinal, uma fronteira é sempre o lugar da liberdade e do novo, atraente para quem tem sede de aventura e de poder transformador da sociedade humana. No outro lado dessa moeda, a fronteira paga um alto preço da violência e das contradições no embate entre “civilização” e “barbárie”, mas forjam homens e mulheres de fibra, capazes de dar prosseguimento ao trabalho e à luta dos pioneiros para produzir um lugar onde poderá haver uma sociedade mais justa, solidária e exemplo de vida sustentável. E só assim, Campo Grande terá a capacidade de reabrir as portas do tempo.

 

 

 

Campo Grande, MS, agosto de 2020

 

Valmir Batista Corrêa

Presidente do IHGMS

 

Lucia Salsa Corrêa

Autor: Valmir Batista Correa e Lúcia Salsa Correa

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