Hildebrando Campestrini – (1941-2016)

 

      • Eron Brum*

Meu primeiro contato pessoal com o professor Hildebrando Campestrini não foi, com franqueza, nada amistoso. Ele fora convidado pelo dirigente maior de uma instituição educacional para analisar projeto acadêmico com alguns professores e a conversa foi longa. Hildebrando, o último a falar, desmontou rigorosamente os nossos argumentos. Ouvindo-o atentamente, pensei, mas não falei: será que ele acha que é o dono exclusivo da verdade? Tempos depois, o tal do projeto se demonstrou inviável.

Com o correr dos anos passamos a nos encontrar com mais frequência e a minha primeira impressão daquele encontro foi se alterando; e me surpreendia sempre quando lia/via suas entrevistas polêmicas na mídia, que não são poucas, e identificava características marcantes em suas falas: posições firmes e argumentos sólidos, quase sempre irrespondíveis.

Hildebrando Campestrini, ou professor Hildebrando, como prefere ser chamado, será revelado pelos nossos diálogos em sua sala nos fundos do imponente prédio onde se encontra o Instituto Histórico e Geográfico, que preside. Invariavelmente, as conversas eram interrompidas pelos inúmeros telefonemas ou visitantes que entram na sala sem cerimônias, pois ele faz questão de deixar a porta sempre aberta. E também busquei informações em alguns dos onze livros que escreveu, mais dois em parceria, num texto que produziu para ser lido em uma das poucas homenagens que aceitou e de entrevistas midiáticas.

Seu gosto pelos estudos começou cedo na cidade de Rio dos Cedros, Santa Catarina, onde nasceu em 6 de maio de 1941. De origem humilde, estudava de manhã e, à tarde, ajudava os pais, modestos agricultores, filhos de italianos. O pouco tempo para os estudos e a vida difícil da roça não impediam que estivesse sempre entre os primeiros alunos. O sucesso nos estudos o levou para o Seminário Maior Salesiano (Campo Grande, MS) de onde saiu, em 1962, com dois diplomas que marcaram a sua vida: Filosofia e Pedagogia. Buscador incansável de conhecimentos, ainda encontrou tempo para cursar licenciatura em Letras, francês (1972) e especialização em Filosofia Pura (1984), ambas pelas Faculdades Católicas de Mato Grosso, e mais uma especialização, Língua Portuguesa, na Universidade Católica de Minas Gerais (1979).

Trentini de Rio dos Cedros

O sobrenome Campestrini consta do site Circolo Trentini de Rio dos Cedros e a razão é especial e curiosa: sua língua materna foi o dialeto trentino e o primeiro professor, bilíngue, usava o texto em português e explicava no trentino. Por sinal, a província de Trento, encravada nos Alpes europeus, divisa com a Áustria, é considerada uma das regiões mais lindas do mundo, além de ser única entre todas as províncias italianas com autonomia política e econômica.

Seria o orgulho dos trentinos responsável por algumas características marcantes do prof. Hildebrando? Intolerante com a mediocridade – que considera uma verdadeira praga –, impaciente com os chatos de plantão, a quem despede sumariamente de sua sala, aparente ar de superioridade, ideias definidas e provocantes, dialético, inimigo confesso do maniqueísmo, agnóstico, franqueza à flor da pele, respostas surpreendentes e não raramente irônicas.

Certa vez, conta o professor, um candidato a escritor queixava-se que um vírus havia deletado seus três livros, e a resposta foi arrasadora: “A humanidade agradece”. Autêntico, demonstra toda a sua impaciência com os “especialistas em discursos alheios”, talvez devido ao seu pragmatismo demonstrado quando Campo Grande ainda discutia se a retirada dos trilhos do centro da cidade deveria ser concretizada. A um histórico defensor dos trilhos, desafiou: “só acredito na sua convicção, se o senhor guardar três trilhos em sua casa; mais, amanhã a Prefeitura os deixará no seu endereço”. O endereço, é bom que se diga, nunca foi fornecido.

O prof. Hildebrando não desvia de problemas, enfrenta-os, o que já lhe resultou boas dores de cabeça. Sua coragem na defesa de ideais o levou a prisão, em 1967, acusado de contrariar o regime militar. Ele não esconde o motivo: a defesa que fazia dos seus alunos, notadamente os do ensino superior, que fossem tratados de forma arbitrária pelos militares.

Nem homenagens, nem títulos

Outro traço marcante de sua personalidade é a aversão pelas homenagens e comendas. Até hoje não o convenceram a aceitar os títulos de cidadão campo-grandense e sul-mato-grossense, e ainda não foi buscar uma medalha do Poder Judiciário. E somente há pouco tempo tomou posse de sócio eleito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. E não se trata de gesto esnobe ou revanche: “Não me sinto a vontade”, garante.

Voltando um pouco ao passado encontraremos alguns traços responsáveis pelo Hildebrando Campestrini impaciente, rigoroso na defesa de princípios, argumentos sólidos por trás das ideias defendidas, professor combatente da mediocridade – o que faz como um autêntico guerreiro, dizem seus alunos, que não são poucos, pois lá se vão 53 anos de sala de aula desde o dia que trocou sua Rio dos Cedros por Campo Grande.

Muito cedo foi para o Seminário. Estudioso, responsável e generoso com aqueles que enfrentavam dificuldades no aprendizado, desde a quinta série do antigo primário auxiliava os colegas no que antigamente se chamava de tarefa ou lição de casa. Ainda no Seminário dedicou-se ao estudo aprofundado da Língua Portuguesa, transformando-se em referência não só entre aos colegas, mas, principalmente, junto aos professores.

Destacou-se ainda pela “fome” de leitura e a enorme estante não o intimidou: leu todos os livros da biblioteca do Seminário. E olha que, paralelamente aos estudos formais, fez teatro durante oito anos, estudou música – considera-se um pianista razoável – e aprendeu a tocar quase todos os instrumentos de sopro da banda do colégio. Orgulha-se até hoje pelo fato de nunca precisar de partitura, sabia todas as músicas de cor. Os seus conhecimentos musicais transformaram-no em organista e mestre iniciado de coral no Seminário.

Entretanto, o prof. Hildebrando confessa com uma ponta de orgulho os seus tempos de Seminário Maior, quando se distinguiu no estudo de Filosofia pura. Professores superexigentes, quando as aulas, provas e arguições eram em Latim, chegou a tirar nota 10 durante todo um ano inteiro, “no tempo em que se estudava Aristóteles em grego”, ressalta.

Poliglota, estudou as literaturas latina, italiana, francesa e espanhola nas fontes primárias, além da brasileira e portuguesa, e faz outra confissão: “Sempre detestei traduções”. Eterno estudioso, teria adotado como seu o lema de Apeles: Nenhum dia sem uma linha. Discordo. Talvez o lema mais apropriado para o seu caso seja Leio, logo escrevo. Com a devida permissão de René Penso, logo existo Descartes.

estreia do prof. Hildebrando nas letras foi polêmica. Para variar, é claro. Lá se vão mais de 40 anos quando, a pedido de um amigo, foi a São Paulo e levou uma encomenda ao Dr. Anderson Fernandes Dias, proprietário da Editora Ática. Conversa vai, conversa vem, fez severa crítica a um livro de literatura brasileira editado por ele. O editor gostou da sua ousadia, almoçaram juntos e, na despedida, o desafio: “Professor, escreva o livro de literatura como o senhor imagina; eu publico”.

“Eu topo”, foi a sua fulminante resposta. E assim nasceu, em 1975, o livro Literatura Brasileira com Textos e Testes, que ficou vinte anos em catálogo. Pouco tempo depois a mesma editora encomendou uma série para o ensino médio: Português para o segundo grau, em dois volumes. Aí não parou mais, os livros se sucederam. Um exemplo do sucesso de suas obras é História de Mato Grosso do Sul- Cinco Séculos de História, já em sua sétima edição: as 194 páginas da primeira edição, em 1991, saltaram para as 416 atuais (2011), para o qual produziu esta preciosidade, em poucas palavras, na apresentação:

Quando conclui a abertura da estrada,
o pioneiro tem absoluta certeza de que
ela possui defeitos e limitações.
Mas está aberta. E conduzindo para
Os homens. Assim – este livro.

Alguma fórmula especial para explicar o sucesso literário? O prof. Hildebrando dá crédito à excelente formação humanística no Seminário, tanto Menor como Maior, período em que leu tudo da literatura brasileira publicado até meados do século 20, além da italiana, francesa, espanhola, grega e latina. Essa escola, mais os estudos aprofundados de língua portuguesa, lógica e filosofia sistemática, assegura, contribuiu de forma decisiva na sua formação interdisciplinar: “Foi o que permitiu formar meu estilo e criar o meu discurso”.

Os frutos que fiquem para os passarinhos

Autores clássicos sempre estiveram em sua estante. Entre os latinos é admirador confesso de Virgílio, Cícero e Horácio; do italiano Dante; dos portugueses Camões, Alexandre Herculano, Eça e alguns modernistas; dos brasileiros, Machado de Assis, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, José Simões Lopes Neto, João Ubaldo Ribeiro, Guilherme de Almeida e Cecília Meirelles.

Com certa relutância e econômico nas palavras, aceita dar um breve depoimento sobre a sua obra e prêmios: “Recebi alguns prêmios, mas nem me lembro deles. O maior prêmio para o escritor é ter tido obra conhecida e reconhecida através de sucessivas tiragens ou edições – o que vem acontecendo com algumas obras minhas. Cartas a Sara é, até hoje, entre as regionais, a que teve mais apreciações publicadas principalmente nos suplementos culturais. Outro fator curioso é ter figurado por algum tempo na lista dos cem autores brasileiros mais pirateados”.

Por falar em Cartas de Sara, chega a ser surpreendente o Hildebrando Campestrini polêmico, pesquisador sério e professor rigoroso transmutado em um ser apaixonado, sensual e amoroso nas 79 páginas impregnadas de uma paixão digna dos mais derretidos amantes. Querem uma prova? Ei-la:

Querida: lamento não ter palavras mais vivas
para registrar o meu encanto. As palavras
de quem ama são sempre, para os outros,
banais. Não serão banais para nós,
porque estão elas, pobres e secas
para os outros, acompanhadas de suaves
carícias, de amorosos olhares,
de beijos envolventes e rosto sereno.

O resultado dos escritos, reconhecimento público, comentário dos amigos e conhecidos significam muito pouco em relação ao prazer que sente na construção da obra. E recorre ao humor ácido para explicar que o prazer não está em colher frutos e, sim, fazer germinar a semente, devolver a muda e promover o crescimento da planta. “Os frutos que fiquem para os passarinhos”, decreta.

O prof. Hildebrando não foge de tecer comentários sobre o engajamento ideológico do escritor e cita, como exemplo, um dos seus autores prediletos: “Quando escreve, todo autor transfere, mesmo que não queira, certa carga ideológica. É inevitável. Até porque cria o seu mundo, colocando nele seus anseios e buscas.O ideal é que o texto una a mensagem ao prazer, como já recomendava Horácio na Arte Poética: Terás muito sucesso se conseguires unir o útil ao agradável. Para ele útil era a mensagem; agradável, entrando pelos poros, a arte”.

Quem discorda não sabe e quem concorda não aprende

Mesmo sendo considerado polêmico, até mesmo por companheiros do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul – que preside desde 2002 -, o prof. Hildebrando rejeita tal rótulo e confessa que é dialético, mais preocupado em entender os outros, o que não significa concordar ou discordar: “Quem discorda não sabe e quem concorda não aprende. Eu tenho posições firmes, convictas, e as defendo. Como cidadão, tenho que participar. Quanto aos pareceres, que com frequência contrariam interesses de terceiros, o seguinte: não preparo pareceres por encomenda; só aceito quando posso expor meu convencimento. É lógico que esta conduta pode contrariar pessoas que pensam diferentemente. Como minhas manifestações são isentas de paixão, ou seja, racionais, com argumentos sólidos, mesmo os que não concordam acabam por me respeitar”.

Os 53 anos divididos entre as saladas de aula da Universidade Estadual de Mato Grosso, hoje Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, das Faculdades Católicas Unidas de Mato Grosso, transformada em Universidade Católica Dom Bosco, da Escola Superior de Magistratura de Mato Grosso do Sul não foram suficientes para matar a sua sede de ensino. Nos intervalos, tornou-se funcionário concursado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul e deu um jeito na agenda para secretariar por vários mandatos e presidir a Academia Sul-mato-grossense de Letras, e revisar a Constituição do Estado de Mato Grosso do Sul.

Para você conhecer um pouco mais o pensamento de Hildebrando Campestrini, confira algumas de suas frases-torpedo retiradas da mídia campo-grandense:
“Campo Grande é uma cidade que progride sozinha, basta o poder público não atrapalhar e criar a infraestrutura necessária”; “Não entendo a preocupação de que Campo Grande não tem identidade; vivemos bem sem ela, aliás, pode-se afirmar que a nossa identidade é não termos identidade”; “A performance na educação não se mede por estatísticas, mede-se pela diminuição de atos infracionais e de crimes, pelas árvores preservadas, pela limpeza das ruas, pelo exercício da cidadania, pela solidariedade, pela participação responsável”; “Quando se ouve aquele índio que a Funai cala, percebe-se cristalinamente que ele deseja o mundo evoluído, do progresso, do conforto. Ele quer escola de qualidade para os filhos, quer telefone celular, quer transporte confortável, quer saúde – sem perder suas origens, suas características e sua língua”.

E para concluir, definição de Hildebrando Campestrini, por ele mesmo: “Um ser humano autêntico, que estuda muito, que escreve, que quer ser útil. Feliz, embora, às vezes, insatisfeito”.

*Eron Brum – jornalista e professor, associado efetivo titular da cadeira no.24 do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul(IHGMS). Texto publicado em Vozes da Literatura, edição da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, Campo Grande-1914.

REFERÊNCIAS
CAMPESTRINI, Hildebrando. Cartas a Sara. Campo Grande: Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, 1990.
___________ História de Mato Grosso do Sul. 7ª. Ed. Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, 2011.
Jornal Correio do Estado.Campo Grande: edição de 25 de agosto de 2013.
Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul. Campo Grande: edição de 1º de junho de 2013.
www.circolotrentino.com.br./Rio dos Cedros. Consulta em 13.set.2013.